Resenha: A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

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“A morte de Ivan Ilitch” é daquelas pequenas novelas que concentram uma enormidade de significados. Com o desfecho já conhecido – a morte do personagem principal -, a narrativa concentra-se em explorar o peso da morte iminente e as meditações sobre a vida que decorrem da aproximação do fim.

Entre as reflexões que mais me marcaram na obra está a questão da superficialidade das relações sociais e de seu marcante utilitarismo. Logo no início, isso é escancarado no modo como os colegas de trabalho de Ivan Ilitch recebem a notícia de sua morte: todos imediatamente pensam no significado que ela poderia ter para sua carreira ou de conhecidos. Além disso, o velório é considerado uma obrigação social, e os chamados “amigos do falecido” estão, na verdade, preocupados em como isso atrapalhará seu jogo de cartas naquele dia.  
 
Da mesma maneira, a esposa de Ivan está preocupada com sua pensão, e não há nada em suas ações que demonstre afeição pelo falecido marido. O desenrolar da história, que na verdade é uma recapitulação da vida de Ivan até sua morte, deixa cada vez mais evidente esse aspecto das relações entre os personagens.  
 
Ivan tivera a vida “mais simples e comum“. Casou-se porque era o “que seria considerado correto pelas pessoas que ocupavam os mais altos postos“. Todo o seu viver foi pautado pela busca em se inserir no meio aristocrático e conseguir dele o que necessitava – seu cargo, sua posição, seu reconhecimento. Até que, enquanto decora sua nova casa ao estilo de “todas as pessoas não propriamente ricas, mas que querem parecer ricas“, ele se machuca.  
 
A princípio, Ivan Ilitch simplesmente ignora a dor que sente na região do flanco, mas o incômodo vai progredindo e ele passa a sentir, também, um gosto amargo na boca. Nesse momento, ele busca ajuda e, apesar de se consultar com renomados médicos, nenhum parece saber ao certo o que ele tem. Logo Ivan passa a se irritar pela resistência dos especialistas em lhe dizer a gravidade do problema e, cada vez mais, ele sente a doença crescer dentro de si e a morte se aproximar.  
 
Essa percepção da proximidade do fim é acompanhada por um crescente isolamento de Ilitch. Entendendo que sua doença é inconveniente para seu círculo social e que ninguém parece compreender a gravidade do seu estado (os amigos o acham dramático e a esposa o acusa de não tomar adequadamente os remédios), ele vai repelindo cada vez mais a todos e se isolando em seu escritório.  
 
Esse ponto revela muito da forma como o autor enxergava as relações sociais da aristocracia russa. Na medida em que Ivan adoece, ele se torna um peso para aqueles que o cercam. Como se ele só fosse bem aceito no grupo enquanto útil. Cessada a utilidade, ele passa a se tornar um estorvo, e sua morte chega, ao final, como uma espécie de alívio para todos. O personagem chega a pensar sobre Piotr, um dos servos que se encarregava de cuidar dele e do escritório: “Ele precisa pôr o cômodo em ordem, e eu estou atrapalhando, eu sou a sujeira, a desordem”.  
 
A única pessoa que Ilitch permite se aproximar é Guerassim, pois somente eleentendia sua situação e tinha pena dele. E, por isso, Ivan Ilitch só se sentia bem com o mujique“. Guerássim foi o único a demonstrar compaixão pelo doente, não poupando esforços para deixa-lo o mais confortável possível e, por isso, é quem acaba lhe fazendo companhia em sua solidão.  
 
E, nesse estado de isolamento crescente, na medida em que a doença avança e as dores também, Ivan Ilitch pouco a pouco é levado a refletir sobre sua vida. Incoformado com a ideia da morte iminente, ele passa a questionar o que teria feito de errado para chegar àquele momento:

Talvez eu não tenha vivido como é preciso’, vinha-lhe de súbito à mente. ‘Mas como não, se eu fiz tudo como se deve?’, dizia ele a si, e de imediato afastava de si, como algo completamente impossível, essa única solução para todo o mistério da vida e da morte.  

Mas quanto mais refletia, mais essa ideia ia se desfazendo e ele percebe que todos os “melhores momentos de sua agradável vida pareciam agora totalmente diferentes do que tinham parecido então“. A exceção estava na infância, uma espécie de ponto de luz em meio a escuridão que sua vida havia se tornado.  
 
Ele reflete:

E, quanto mais tempo se passava, mais morto tudo era. Como se eu caminhasse montanha abaixo, de maneira constante, imaginando que caminhava montanha acima. Foi bem assim. Na opinião da sociedade, eu ia montanha acima, e na mesmíssima medida a vida se afastava debaixo de mim…

Sua vida, uma constante busca por ascensão e reconhecimento social, parecia-lhe, agora, sem sentido. Somente a infância, onde estava livre dessas preocupações, soa verdadeiramente feliz. Daí em diante, “quanto mais próximo do presente, mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias.” E, assim, ele finalmente tem uma epifania: vem-lhe “à mente que aquilo que antes lhe parecera completamente impossível – que ele não tinha vivido sua vida como deveria – que aquilo podia ser verdade“.

Ao admitir isso, ele mergulha em um estado de abatimento moral e espiritual que contribui para o avanço final da doença. Sua esposa chama um padre e, depois da confissão, Ivan Ilitch tem um curto período de alívio, demonstrando como a dor física e a espiritual estavam fortemente ligadas.

Mais tarde, porém, a imagem de sua esposa, que veio lhe perguntar se estava melhor, reacende nele o ódio por perceber que tudo o que viveu é uma mentira. E, juntamente com o ódio, ressurge “o sofrimento físico torturante e, com o sofrimento, a consciência da ruína, inevitável e próxima“.

A partir de então, Ivan Ilitch entrega-se às suas dores, física e moral, e passa a gritar e a contorcer-se, quase que ininterruptamente, pelos próximos três dias. Já no final do terceiro dia, e depois de considerar que está sendo um peso para seus familiares e que precisa livrá-los desse sofrimento: “ele aspirou o ar, parou no meio do suspiro, esticou-se e morreu“.

A brevidade com que o momento final é descrito, assim como a inexatidão da doença (parece um câncer, mas isso não está evidente), deixa claro que a novela, na verdade, não é sobre a morte, mas sobre a vida. Por meio das reflexões do doente, que talvez só sejam possíveis justamente por essa proximidade com a morte, somos levados a pensar sobre como estamos vivendo.

Será que, se fôssemos hoje colocados na mesma situação de Ivan Ilitch, nossas conclusões sobre nossas próprias vidas seriam diferentes? E se concluirmos que não, como seria possível fazer o certo? Essas são questões fundamentais sobre a vida, que nem sempre lembramos de nos fazer.

Fica então o lembrete e o convite à novela, que vale cada minuto de leitura.

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