“Esta história é, em resumo, sobre um monstro encontrando outro monstro. Um dos monstros sou eu”.
Quando li essa citação do livro “Amêndoas”, senti como se tivesse levado um soco no estômago e, sendo bem honesta, essa sensação não melhorou muito nas páginas seguintes.
Calma, calma! Minha intenção não é assustar vocês, mas também preciso alertar que podem ter alguns gatilhos no meio do caminho.
Quando você olha aquela capa fofinha em tons pastéis, com o desenho de um rapaz aparentemente tímido, nem imagina que vai “suar pelos olhos” algumas vezes durante a leitura.
Achei por um momento que era um daqueles livros com o intuito “terapêutico” – e pra mim ele realmente é, mas em um sentido muito mais visceral -, até ler a sinopse e perceber que talvez estivesse entrando em uma furada literária (sou muito coração mole, mas a curiosidade me venceu).
O livro conta a história de um jovem chamado Yunjae, que nasceu com uma condição rara que o faz ter dificuldade para identificar e expressar emoções. Em determinado momento descobrimos que sua amígdala não se desenvolveu completamente e, para explicar ao rapaz, sua mãe diz que todos temos “amêndoas” e a dele não cresceu. É daí que vem esse nome tão singular!
Eu não entendi até agora como a autora conseguiu deixar algumas cenas pesadas tão suportáveis e, às vezes, até poéticas! A narrativa é vista toda pela visão de Yunjae e como ele não sente dor, medo, tristeza ele acaba tornando algumas descrições brutais amenizadas, mas não menos dolorosas… A beleza desse livro está justamente em captar essa ambiguidade eu “ser um monstro” porque a sociedade não o compreende, mas ao mesmo tempo não o ser, justamente por não ter o controle de poder ser diferente, o que nos traz muitas questões existenciais e filosóficas (já falo sobre isso).
** ALERTA DE SPOILER: CASO NÃO DESEJE SABER DE UM EVENTO IMPORTANTE DO LIVRO PULE OS DOIS PROXIMOS PARÁGRAFOS (ou isso pode ser um sinal para você ler o livro e nos acompanhar) **
Aqui também somos apresentadas a mãe e a avó do garoto, que tem uma relação conturbada, disfuncional e permeada por mágoas mas que, mesmo assim, se esforçam para que ele aprenda alguns comportamentos específicos e tenha uma vida funcional. Esses esforços acabam sendo interrompidos por um atentado na noite de Natal, do qual sua avó é ferida fatalmente e sua mãe acaba em coma no hospital. Yunjae aos 16 anos se vê sozinho e cuidando de uma mãe em estado vegetativo.
O garoto até recebe ajuda e tutela de um amigo da mãe por um período, mas no início é algo esporádico, e nesse meio tempo a narrativa acaba ficando bem mais lenta e até massante. O “booom” vem na segunda parte, quando somos apresentados a um personagem agressivo, rebelde e desajustado chamado “Gon” e, se Yunjae era considerado pelas pessoas o primeiro “monstro”, Gon era o segundo.
Depois de muito desentendimento e da insistência de Gon em tentar entender a falta de empatia de seu colega, descobrimos que por trás daquela couraça rebelde existe o excesso dela.
A partir daqui vou evitar os spoilers porque acredito que o livro vale muito a pena em ser lido.
Depois de nos depararmos com os dois “monstros” se encarando na obra, descobrimos a presença de um terceiro: o que habita dentro de nós. Uiiii essa dói na alma! A gente encara um espelho muito próprio e se questiona o que é realmente o “normal” ao qual nos condicionamos e se a nossa própria empatia não é seletiva ao tentar compreender alguém ao invés de acusar.
Uma coisa que não mencionei antes é que, boa parte da obra se passa no Sebo criado pela mãe de Yunjae, e que ele tenta manter por um tempo. Em um certo momento é dito que o livro favorito dela é Demian, e não por acaso: essa obra é carregadíssima de questões filosóficas e os personagens mencionam a “marca de Caim”, ou a marca do mal que carregam. Aqui vou pedir permissão e entrar um pouco na simbologia da psicologia analítica de C.G. Jung, porque chegamos em um ponto em que os personagens exploram o conceito de “sombra” que, não deve ser ignorado, mas sim integrado ao nosso ser.
É muito difícil encarar as pŕoprias sombras, mais difícil ainda aceitá-las… Mas é isso o que o livro nos traz: quais os limites do amor e da aceitação? Até onde a empatia consegue chegar se o limite do padrão que impomos for rompido?
No final das contas, esse livro é sobre amizade, redenção, sobre se aceitar e tentar viver da melhor forma possível, com apoio, mesmo que ele seja de um círculo reduzido de pessoas.
E no final encontramos os dois “monstros” da obra encarando um terceiro que, domesticado, habita silenciosamente em cada um de nós.


Deixe um comentário