Afinal de contas, por que esse livro de terror não assusta? Diferenças entre o romance gótico e o terror

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Eu já ouvi diversas vezes o pessoal comentando sobre livros específicos de terror e soltando a seguinte frase: “ah, mas não achei assustador” e quando vou dar uma olhada no título é um livro de literatura… Gótica!

Pode parecer um pouco sem sentido o que acabei de dizer, né? Mas prometo que vou explicar direitinho!

Para começo de conversa, afinal… De onde surgiu a literatura gótica?

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que não vou me estender ou ir muito a fundo no surgimento do movimento gótico em si ou a origem do termo (que tem relação com a dominação e cristianização de povos germânicos denominados “Godos”) e focar em sua literatura. O primeiro livro considerado terror gótico (um romance gótico) é o “Castelo de Otranto”, publicado pela primeira vez em 1764. Logicamente, naquela época, este termo ainda não existia e somente hoje o classificamos assim.


No encalço deste romance temos mais a frente obras como: “Carmilla”, “Drácula” de Bram Stocker e “Frankenstein” de Mary Shelley, sendo também muito conhecidos os contos e poemas de Edgar Allan Poe.
Logicamente há muitos outros dentro do estilo, mas esses são alguns dos mais conhecidos, mesmo para quem não é tão chegado nesse gênero.

E qual a diferença entre os livros de terror e os romances ou novelas góticas?

Sendo bem direta quanto as características, o terror tem como objetivo evocar sensações de tensão, medo e antecipação de algo assustador, porém, em algum momento esse terror pode se materializar e gerar o susto, ou pode ser também algo mais psicológico como encontramos em alguns thrillers por aí.


Dentro da literatura gótica o terror está muito mais na construção do ambiente, na possibilidade de algo sobrenatural, nos fantasmas (que podem ser reais ou somente reflexos de sentimentos como culpa, remorso, etc) e em temas como a loucura. Algo que você pode perceber é que dentro de um romance ou novela gótica o terror cresce enquanto o ambiente te sufoca, vai estreitando aos poucos, criando uma atmosfera fechada e intimidadora, mesmo que o personagem tenha todo o espaço do mundo e, muitas vezes, esse estreitamento ocorre pelas crises existenciais dentro da mente dele. O mais incrível é que nem sempre esse terror se materializa, não de forma repentina.


Por causa dessa tensão atmosférica que nunca te traz a uma certeza de medo concreto, você não terá um jumpscare em um livro de elementos predominantemente góticos, ou essa concretização do terror ; se ocorrer é por sua livre e espontânea interpretação.

Esse é um dos motivos que pode induzir um leitor ao erro quando se trata desse tipo de literatura. O “não achei tão assustador” é por não se tratar de um terror puro em sua essência e ter outros elementos específicos. Esse tipo de equívoco acontece também em outras mídias como o cinema; um bom exemplo que tenho é o filme “A colina escarlate”, do qual eu particularmente gosto muito, mas que flopou porque foi divulgado como um filme puramente de terror, mas que estava mais para um romance gótico.


Esse tipo de característica que abordei anteriormente difere um pouco, por exemplo, do intuito da arquitetura gótica! Porém alguns elementos, como algumas contraposições (sublime x grotesco; divino x material) estão presentes. Alguns exemplos que temos desse tipo de arquitetura são as catedrais como Notredame, na França e a nossa neogótica Catedral da Sé, que fica no centro de São Paulo! Ou seja: ainda assim bate aquela crise existencial de leve, né?

Afinal de contas: a literatura gótica é um gênero ou uma estética?

Eu vou ser ousada aqui e responder que é os dois kkkkkkkkkk Você pode ter uma obra de terror com elementos góticos, mas de fato não pode ter uma obra gótica sem a atmosfera de terror.


Muitos colocam como gênero, mas em alguns trabalhos acadêmicos se referem como estética, especialmente porque no movimento do Romantismo tivemos muitas obras que se apropriaram e usaram com maestria esses elementos, mas não poderiam ser chamadss puramente de obras “góticas” por diversos outros fatores e características.
Particularmente, prefiro dizer que o gótico é um subgênero do terror, assim como chamam a estética visual de “subcultura”, não como uma forma de diminuir ou juntar em um único pacote, mas como uma forma de dizer que, fazendo parte de um núcleo diverso, tem características e elementos únicos e fáceis de identificar, tendo uma beleza e uma simbologia muito particular.


E vocês, gostam da literatura gótica ou já ouviram o famoso “não é tão assustador assim”? Conta aqui pra gente e aproveitem para conferir as camisetas do Drácula, Frankenstein e do Poe no site da Use Literalices, elas estão um arraso!


Um abraço gótico pra vocês, e até a próxima!

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