Hamlet é daqueles textos que só melhoram com a releitura. A primeira vez que li foi em 2023 e, desde então, ficou marcado para mim como um verdadeiro divisor de águas: foi quando percebi, de fato, que era possível ler Shakespeare. Eu sempre tive um certo receio, achando que encontraria as mesmas dificuldades que tive com obras como Ilíada e Odisseia, com aquela linguagem mais rebuscada, cheia de construções que, para mim, pareciam difíceis de transpor.
Eu sei que há uma diferença enorme entre uma epopeia e uma tragédia, mas, por algum motivo — talvez pelo meu contato anterior com a poesia shakespeariana —, eu esperava encontrar em Hamlet algo bem mais complicado. E acabei me surpreendendo muito ao me deparar com um texto fluido, direto, repleto de ironias e muito mais acessível do que eu imaginava.
Logo me perguntei qual seria a contribuição do tradutor, o carioca Millôr Fernandes, para essa sensação de clareza. É bem possível que ele tenha um papel importante nisso, já que seu estilo é conhecido justamente por trazer um tom mais simples e coloquial às traduções. Para tirar essa dúvida, só mesmo lendo o original e estudando melhor o contexto linguístico da época, para entender o quão próxima do público estava a linguagem de Shakespeare.
Mas, depois de ter lido outras peças do autor — entre tragédias e comédias —, ficou claro para mim que o texto, em si, não é tão inacessível assim. Apesar disso, a versão do Millôr para Hamlet continua sendo, de longe, a mais acessível entre todas as que já li.
Essa escrita mais clara me permitiu não apenas entender a ação principal da tragédia, mas também observar, de forma mais consciente, muitos dos recursos literários que fazem de Shakespeare um dos maiores escritores de todos os tempos. A inteligência nos diálogos, o ritmo interno das falas, as construções metafóricas — tudo isso vai ficando mais evidente quando o texto não está tão encoberto por uma barreira linguística.
Acompanhar a história do jovem Hamlet e toda a tragédia que envolve a morte de seu pai, a descoberta dessa morte pelo filho, o casamento da mãe com o recém-coroado tio, o amor e a perda de Ofélia, entre outras narrativas menores que se entrelaçam com a principal, foi, sem dúvidas, uma experiência enriquecedora.
Além da trama central, o que mais me chamou atenção em Hamlet foi o quanto a peça provoca reflexões que continuam extremamente atuais, mesmo depois de tantos séculos. Questões como dúvida, o peso de não conseguir decidir e agir, angústia existencial, aparência versus essência — tudo isso atravessa os personagens e se reflete na forma como eles se movem (ou deixam de se mover) dentro da história.
Hamlet não é apenas uma tragédia sobre vingança. É também, e talvez principalmente, sobre as hesitações humanas, sobre o peso de carregar uma escolha, sobre como o pensar demais às vezes nos trava no lugar. E acho que é justamente isso que torna a leitura tão envolvente: mesmo sendo uma peça de época, escrita em outra realidade cultural, ela continua tocando em dilemas que são nossos também, aqui e agora.
No fim das contas, fica a certeza: é possível, sim, ler os maiores escritores de todos os tempos — e nem sempre isso vai ser difícil ou inacessível. Às vezes, tudo o que a gente precisa é dar uma chance ao primeiro parágrafo.

Deixe um comentário