“O amor é como um vírus. Pode acontecer a qualquer momento.”
— Isabel Allende, O Amante Japonês
Em O Amante Japonês, Isabel Allende constrói uma narrativa lírica que atravessa décadas, continentes e diferentes tipos de amor. O livro começa quando Alma Belasco, já idosa, decide se mudar para Lark House, um lar de idosos em São Francisco. Essa decisão surpreende todos os familiares, especialmente porque ela sempre levou uma vida confortável e cercada de luxo. É nesse novo ambiente que Alma se aproxima da jovem cuidadora Irina Bazili, uma personagem que, aos poucos, se torna tão central quanto a própria Alma.
A partir daí, a história se desenrola em dois tempos: o presente, onde Alma, Irina e Seth (sobrinho de Alma) formam um triângulo afetivo marcado por segredos; e o passado, onde conhecemos a juventude de Alma, sua fuga da Polônia durante a Segunda Guerra Mundial e o início de seu relacionamento com Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da família Belasco. O amor entre Alma e Ichimei nasce na infância, cresce silenciosamente e permanece, de alguma forma, ao longo de toda a vida dos dois — mesmo diante da distância, dos preconceitos sociais e das tragédias históricas.
A força de Irina Bazili
Embora a história de Alma e Ichimei seja o fio condutor, a jornada de Irina Bazili é uma das mais emocionantes do livro. Vinda do Leste Europeu, ela carrega feridas profundas causadas por abusos sexuais sofridos ainda na infância. Esses traumas moldaram sua dificuldade em confiar nas pessoas, especialmente em homens, e também em viver o amor de forma plena. Em um trecho, Allende escreve sobre a barreira invisível que Irina ergueu ao redor de si:
“Aprendeu desde cedo a se proteger, a não se deixar tocar, porque cada toque podia significar um novo perigo.”
Aos poucos, no entanto, a relação com Seth e a convivência com Alma permitem que Irina se reconcilie com a possibilidade de amar e ser amada. Ela simboliza, no livro, a luta silenciosa de tantas pessoas que carregam traumas e tentam seguir em frente.
O excesso de temas e a sensação de dispersão
Isabel Allende é conhecida por entrelaçar histórias pessoais com grandes acontecimentos históricos, e isso está muito presente em O Amante Japonês. O romance aborda uma grande quantidade de temas: Holocausto, migração de judeus e japoneses, campos de concentração (tanto os nazistas quanto os destinados aos japoneses nos EUA), traumas de guerra, kibutz em Israel, AIDS e homossexualidade, casamento interracial, preconceito, violência sexual, pornografia, entre outros.
Se, por um lado, isso dá à narrativa um caráter abrangente e socialmente relevante, por outro, pode gerar uma sensação de dispersão. É como se a autora tivesse tentado encaixar tudo o que considera importante em uma única história, o que às vezes tira o fôlego do leitor. Talvez focar em menos temas permitiria um aprofundamento maior e um impacto emocional ainda mais intenso.
O amor como força que atravessa o tempo
Apesar das críticas, O Amante Japonês é um livro que emociona. O amor entre Alma e Ichimei, mesmo marcado pela impossibilidade e pelos longos períodos de afastamento, permanece como um fio condutor ao longo de toda a narrativa. Um dos trechos mais bonitos do livro resume a natureza desse sentimento:
“Alguns amores não precisam da presença diária para se manterem vivos. Eles sobrevivem ao silêncio, à distância, ao tempo.”
Isabel Allende nos mostra que existem afetos que nunca se apagam, mesmo diante das adversidades. Ao mesmo tempo, a autora explora outras formas de amor: o amor familiar, o amor que nasce da amizade, o amor que ajuda a superar traumas.
Conclusão
O Amante Japonês é um livro delicado, que trata do amor e das feridas do passado com a prosa poética característica de Allende. É impossível não se emocionar com a força silenciosa de Irina Bazili, com a ternura contida de Ichimei e com a busca de Alma por manter vivos os laços que a definiram.
Apesar da sensação de que a autora tentou abraçar muitos temas ao mesmo tempo, o romance cumpre bem o papel de nos lembrar que as marcas deixadas por quem amamos permanecem conosco para sempre. E que, como Allende escreve em um dos trechos mais marcantes:
“A vida é frágil e passa depressa, mas o amor, quando é verdadeiro, permanece.”

Deixe um comentário