E se lêssemos A Revolução dos Bichos apenas como fábula? Se, por um instante, esquecêssemos as referências históricas mais imediatas e olhássemos para o livro como uma narrativa autônoma, despida de seus paralelos óbvios com a Revolução Russa e seus líderes?
O que restaria?
Que impacto essa história teria em alguém que nunca estudou política ou história em profundidade?
A fábula sobreviveria sozinha?
Foi assim que me deparei com o livro pela primeira vez. Adolescente, sem bagagem suficiente para enxergar todas as camadas, eu lia e identificava apenas algumas associações mais evidentes. Ainda assim, a narrativa me marcou de forma intensa. Torci pelo cavalo Boxer, vibrei com o entusiasmo inicial dos animais e, pouco a pouco, senti a amargura da decepção: perceber que a revolução não levaria à justiça, mas a uma nova forma de dominação.
Mesmo sem entender completamente os paralelos históricos, a crítica estava lá. A fábula funcionava por si só — como uma parábola sobre poder, ingenuidade e corrupção dos sonhos coletivos.
Relembro hoje as palavras do velho Major, que já naquela primeira leitura soavam proféticas:
“Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida de um animal é miséria e escravidão; eis a verdade” (p. 23).
Ele não só denuncia a opressão, mas adverte sobre algo ainda mais perigoso: a possibilidade de repetir os mesmos vícios do inimigo derrotado. O aviso, ignorado, se cumpre. O lema inicial, que prometia igualdade, degrada-se até virar contradição:
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros” (p. 162).
Se lêssemos apenas como fábula, sem nomes e datas, ainda encontraríamos ali o retrato de um mecanismo universal: ideais que se desgastam, narrativas que são manipuladas, memórias que são distorcidas. Animais que sonham com liberdade, mas acabam de volta à submissão — agora comandados pelos que antes eram companheiros.
É essa simplicidade devastadora que garante a força do livro. Orwell não escreveu apenas para um tempo ou um regime. Ele criou uma fábula que resiste mesmo sem contexto, porque toca em algo recorrente: o risco de que toda revolução, sem vigilância, repita as estruturas que prometeu destruir.
Eis a provação: ler A Revolução dos Bichos como quem encara uma parábola universal, deixando de lado o espelho imediato da história. O resultado não enfraquece a obra; pelo contrário, amplia seu alcance. Mostra que a crítica de Orwell, embora nascida de um tempo específico, é também um alerta para qualquer sociedade, em qualquer época.
Talvez seja essa a genialidade da fábula: funcionar como denúncia política e, ao mesmo tempo, como um espelho atemporal da condição humana.

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