Eu, Robô, de Isaac Asimov, não é uma história única, mas a compilação de vários contos que giram em torno dos robôs e de sua relação com os seres humanos. Ao longo do livro, acompanhamos a evolução do uso dessas máquinas pela humanidade e a forma como a U.S. Robots e seus funcionários, especialmente Susan Calvin, psicóloga roboticista, lidam com falhas de funcionamento e com o desenvolvimento, nem sempre tão positivo, das faculdades mentais dos robôs.
O livro se abre com a história de Cutie, um robô cujo excesso de racionalismo o transforma, à primeira vista, em uma ameaça aos humanos. Ele é simplesmente incapaz de aceitar a existência da Terra e de admitir que sua criação tenha partido de seres que, em sua lógica, são claramente inferiores aos robôs. Emquanto Powell e Donovan, funcionários da U.S. Robots, temem a forma de pensar de Cutie, acabam percebendo que, independentemente do que o robô “acredite”, ele é mais capacitado para coordenar a estação de trabalho do que qualquer ser humano poderia um dia.
Essa história funciona como uma abertura simbólica que encontra um eco com o encerramento do livro, quando as máquinas passam a controlar a humanidade de forma definitiva, ainda que os próprios humanos não se deem conta disso. E fazem isso, ironicamente, em benefício do ser humano, conduzindo a sociedade a um estado mais estável do ponto de vista econômico e social.
Este já é o segundo livro que leio de Asimov — o primeiro foi O Homem Bicentenário, lido em 2025. A leitura é fluida, envolvente, e o que mais me intriga é o fato de que, ainda no início da década de 1950, quando os avanços tecnológicos mal começavam a dar seus primeiros passos, Asimov foi capaz de imaginar uma sociedade em que as máquinas não apenas auxiliam, mas são plenamente capazes de sobrepujar os seres humanos.
Em um mundo em que a inteligência artificial começa a se popularizar, com cálculos, análises e recursos cada vez mais sofisticados, a pergunta que fica é inevitável: estamos caminhando para o cenário imaginado por Asimov? No universo robótico do autor, as três leis fundamentais da robótica —
a) um robô não pode ferir um ser humano nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal;
b) um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto quando essas ordens entrem em conflito com a Primeira Lei;
c) um robô deve proteger sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei —
funcionavam como a garantia de que as máquinas permaneceriam a serviço da humanidade, e não como suas substitutas.
A questão que permanece em aberto é: de que forma estamos lidando com isso hoje? E quais são, afinal, as “leis” que tentamos impor às inteligências artificiais do nosso tempo?
Se você gosta de leituras que atravessam o tempo, provocam perguntas incômodas e continuam ecoando muito depois da última página, Eu, Robô é um convite difícil de recusar. Mais do que um clássico da ficção científica, o livro funciona como um espelho — às vezes desconfortável — do mundo que estamos construindo hoje. Ler Asimov é perceber que algumas inquietações humanas são antigas, recorrentes e, talvez, inevitáveis.
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