Resenha – De Passagem, Nella Larsen

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(contém comentários gerais sobre conflitos centrais, sem revelações diretas do desfecho)

Ganhei esse livro de presente de Natal de um amigo muito querido. Não conhecia a autora e confesso que estou em dívida com a leitura de literatura escrita por mulheres (aliás, ler mais mulheres é um projeto pra 2026). Ainda assim, eu não fazia ideia do que me esperava ao começar De Passagem.

Irene e Clare conviveram na infância. Anos depois, as duas se reencontram casualmente em um hotel, enquanto tentam “se passar” por brancas. Esse encontro já inaugura uma das questões centrais do livro: o que significa, afinal, ser negro?

Sem que o romance ofereça respostas fechadas, fiquei pensando em como essa pergunta atravessa realidades diferentes. Em um contexto como o brasileiro, por exemplo, onde políticas de ação afirmativa muitas vezes se baseiam principalmente em fenótipos (cor da pele, textura do cabelo, traços), Irene e Clare provavelmente não seriam consideradas negras. Mas isso as tornaria menos negras? Ou apenas evidencia como identidade racial é algo mais complexo do que aparência? O livro não resolve, mas provoca.

Quando Irene visita Clare em sua casa, descobre que Clare se passa de branca também para o próprio marido. Ele não apenas desconhece sua origem racial, como expressa abertamente desprezo por pessoas negras. Diante disso, Irene se sente ameaçada pela situação e tenta se afastar.

Irene, ao contrário de Clare, vive sua identidade negra de forma pública. É casada com um homem negro, mora no Harlem e participa da vida social da comunidade. Mesmo assim, o vínculo entre as duas acaba sendo retomado, e Clare passa a frequentar eventos no Harlem, buscando uma reaproximação com suas origens culturais.

A partir daí, o romance se desloca cada vez mais para o terreno psicológico. Irene começa a desconfiar que Clare esteja se aproximando demais de Brian, seu marido. Não há provas concretas, mas a suspeita cresce e passa a ocupar seus pensamentos. Ela se vê dividida entre sentimentos contraditórios: raiva, insegurança, desejo de preservar sua estabilidade familiar e um senso de responsabilidade racial.

Esse conflito culmina em um desfecho tenso, marcado por acontecimentos abruptos e uma forte ambiguidade.

Uma associação inevitável, para leitores de literatura brasileira, é pensar em Bentinho, de Dom Casmurro. Irene não é uma narradora totalmente confiável. Vemos os fatos filtrados por seus medos, interpretações e silêncios. Assim, permanecem em aberto questões fundamentais: houve mesmo uma traição? Até que ponto as suspeitas de Irene refletem a realidade, ou seus próprios temores?

Da mesma forma, o que acontece no final do livro não recebe uma explicação definitiva. Larsen constrói um encerramento que recusa certezas, e essa escolha parece absolutamente consciente. Cada possibilidade carrega um peso simbólico diferente: violência racial, crime passional, desespero, acidente. Ao não nomear uma verdade única, a autora amplia o alcance da história.

De Passagem é um romance curto, mas denso. Fala de raça, sim, mas também de desejo, inveja, pertencimento, medo e das máscaras que as pessoas vestem para sobreviver. E talvez sua maior força esteja justamente nisso: não oferecer conforto, não oferecer respostas fáceis, apenas deixar perguntas que continuam ecoando depois da última página.

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