
Ano passado, eu entrei em um Clube de Leitura e um dos livros do semestre era A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Adiantei os demais livros e deixei um tempo maior pra essa leitura, porque sabia que seria mais desafiadora. Estava lendo pela edição do Clube de Literatura Clássica e eu não queria simplesmente ler por ler. Eu queria entender o livro, absorver o máximo possível, porque é uma leitura para uma vida inteira, e eu sabia disso.
Logo ficou evidente que, pra ler desse modo, eu precisaria de um tempo que eu não tinha naquele momento. Então abandonei depois de finalizar O Inferno. Não porque não estivesse gostando, mas porque aquela leitura não combinava com aquele momento da minha vida.
Eu conto essa história não com sentimento de fracasso literário. Demorei um pouco pra entender, mas hoje sei que literatura não é sobre concluir, é sobre estar presente. Conheci pessoas que liam 100 livros em um ano e permaneciam iguais, enquanto outras liam poucos, mas carregavam essas leituras em cada fala, em cada gesto do dia a dia. Você percebia o impacto daquilo em quem a pessoa era, e isso transparecia de uma forma que só quem é leitor vai entender. Os livros precisam mudar você e, pra que cumpram esse papel, não adianta correr pra chegar ao fim.
Se você já se sentiu culpado por abandonar um livro, já pode deixar essa culpa de lado. Isso não é um convite pra abandonar um livro ao primeiro obstáculo, mas um abraço distante de alguém que entende. Alguém que sabe o que é começar um livro e sentir que aquele não é o momento certo. Ou simplesmente deixar de lado porque não gostou. Ler por ler jamais é a solução. Leia aquilo que te toca, que te move e que tem a capacidade de ficar com você por muitos anos.
E, claro, desafie-se também. Permita-se entrar em contato com o que causa desconforto, porque muitas vezes é justamente essa leitura que mais tem força para transformar. Isso não é um convite pra permanecer sempre nas mesmas histórias. É preciso sair da zona de conforto de vez em quando. Mas é, acima de tudo, uma carta de uma leitora que aprendeu que números dizem muito menos do que profundidade.
Eu ainda pretendo terminar “A Divina Comédia” no futuro, talvez como um projeto mais longo, sem pressa e com mais espaço para reflexão do que para cobrança. Mas precisa ser, acima de tudo, do jeito certo, não somente pra entrar na minha lista de livros lidos.
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